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NEM

O Núcleo de Estudos de Mediação

O NEM (Núcleo de Estudos de Mediação) foi criado em 2002 na Escola Superior da Magistratura do Rio Grande do Sul, por José Luis Bolzan de Morais, Procurador do Estado, com a finalidade de promover um espaço para estudo sobre a Mediação de Conflitos.

Periodicamente o NEM realiza encontros para o aprofundamento dos aspectos teóricos e práticos, reflexões e pesquisas sobre o tema.

Os projetos

Com o olhar voltado à comunidade, o NEM levou adiante, em 2007, o Projeto de Mediação Comunitária na Lomba do Pinheiro em Porto Alegre, preparando Mediadores comunitários e a estrutura básica de atendimento social.

Em 2013 o Núcleo colaborou com sugestões à proposta de construção do Código de Convivência do Município de Porto Alegre.

Em 2014, encaminhou sugestões à Comissão Legislativa do Código de Processo Civil e a Lei de Mediação.

Em 2017, por ocasião dos 15 anos do Núcleo, coordenado pela Desembargadora Genacéia Alberton, que esteve a frente do NEM por longos anos, promoveu durante o ano, palestras e encontros de relevância para a Mediação, dentre os quais destacou-se o tema Comunicação Não Violenta.

Em 2019 o NEM promoveu a primeira reunião híbrida do grupo permitindo a participação de integrantes que não moravam em Porto Alegre.

Em 2022, em comemoração aos 20 anos do NEM, seus integrantes publicaram o e-book Semediando que compilou histórias de sucesso da Mediação, apresentadas no formato de contos. O lançamento oficial foi durante a Jornada de Mediação do Nupemec TJRS em novembro daquele ano.

As inovações

Com o advento da pandemia de Covid-19, em 2020, à época coordenado pela Desa. Vanderlei Teresinha Tremeia Kubiak, o Núcleo passou a realizar seus encontros de forma virtual, alcançando Mediadores de todo o Brasil.

A coordenação

Desde abril de 2020 o Núcleo de Estudos de Mediação é coordenado pela Juíza de Direito, Josiane Calleffi Estivalet recebendo o Núcleo das Coordenadoras anteriores, Desembargadora Genacéia Alberton e Desembargadora Vanderlei Teresinh Kubiak.

O NEM

Nas palavras da Desembargadora Genacéia Alberton, "a paixão pela mediação e a cooperação dos seus integrantes, consolidam o Núcleo de Estudos como um importante marco na história da mediação no Rio Grande do Sul”.

SeMediando Histórias

 "Esta obra contendo relatos de mediadores experientes e iniciantes nos oferece uma fotografia desse importante trabalho em prol da harmonização social. Casos simples, complexos, emocionantes, inusitados, engraçados são tratados com seriedade, muito respeito e com o sincero desejo de fornecer as melhores ferramentas para aplacar a dor e o sofrimento daqueles que, pelas mais diversificadas razões, estão em conflito e não possuem o necessário discernimento para encontrarem, por si sós, a solução mais adequada, aquela que possa atender aos interesses de todos." (Josiane Caleffi Estivalet, Juíza de Direito, Coordenadora do NEM-Núcleo de Estudos de Mediação da Ajuris)


Baixe o seu e-book SeMediando Histórias de Sucesso no link 

https://drive.google.com/drive/u/5/folders/1doKnLMo8ui7Kx2J2GYtHACBLsWkA6NPr











O autoconhecimento do mediador: ilusões e possibilidades



Leonardo Della Pasqua 

Psicólogo, psicanalista. Mediador judicial e privado, instrutor e supervisor de mediadores judiciais pelo TJRS. Mediador certificado pelo ICFML – Instituto de Certificação e Formação de Mediadores Lusófonos. Membro do Núcleo de Estudos em Mediação da Escola Superior da Magistratura (AJURIS/RS). Membro do EMPATHOS – Instituto de Parentalidade e Mediação. Presidente da Sociedade de Psicologia do RS (2011-2013).

Em algum momento de sua prática profissional, todo o mediador acaba se deparando com situações onde sua atitude e condução foram determinantes para o procedimento. Ou ele foi protagonista demais ou precisava ser mais ativo, ou se identificou com a experiência dos mediandos ou foi frio e distante, ou intuiu possibilidades ou foi flexível com o procedimento. Aos poucos vai ficando claro o quanto o autoconhecimento afeta a qualidade e a eficácia do trabalho desenvolvido e questionamentos vão surgindo: Quais as possibilidades de autoconhecimento do mediador de conflitos? Como identificar os limites desta busca? De que modo é possível reconhecer e trabalhar com nossos “pontos cegos”?

Conhecendo a si mesmo

A maior parte das pessoas não faz ideia de quem sejam. Têm uma ideia acima ou abaixo do que realmente são. O profissional que trabalha com conflitos é responsável por criar um ambiente de lucidez e entendimento entre as pessoas e precisa conhecer os seus próprios limites, sob pena de comprometer a própria relação com a qual irá trabalhar. Quando o mediador ignora os atributos próprios do seres humanos (como as emoções, resistências, as tendências internas e as preferências) corre o risco de contrariar os próprios princípios da mediação, como a independência, a imparcialidade, a autonomia da vontade e a neutralidade, distanciando-se das condições necessárias para ser um facilitador do diálogo.

Para auxiliar nesta construção, abaixo indico algumas condições necessárias para ser mediador:

  1. Formação contínua: desenvolvimento pessoal, aprofundamento teórico, técnico e supervisão;
  2. Pessoa real do mediador: humano que comete erros;
  3. Visão das diferentes partes dos conflitos (internos e externos);
  4. Novos vértices de observação - visão binocular;
  5. Respeito: enxergar a pessoa sem rótulos e preconceitos;
  6. Terceiridade: terceiro que consegue pensar dentro e fora do conflito;
  7. Empatia: entrar dentro da experiência subjetiva do outro;
  8. Capacidade negativa: conter as angústias decorrentes do seu não saber;
  9. Intuição: olhar com um terceiro olho, com uma visão para dentro do sujeito;
  10. Ser verdadeiro.

Ilusões sobre o autoconhecimento

A Frase “eu que sei de mim” demonstra um ódio ao inconsciente, pois o autoconhecimento não pode ser atingido sem a interação com o outro. Sei de mim através do outro, pela interação com outro. Nossa identidade é constituída a partir dos traços do outro. Existe uma construção Ilusória de unidade. O eu é uma miragem, pois há uma divisão entre o que eu penso e o que o outro me mostra que eu penso. Neste sentido, o autoconhecimento é heteroconhecimento.

Um exemplo sobre esta questão é a famosa frase: "Tanto imitei Elvis Presley que me tornei John Lennon". Se observarmos com atenção esta fala, salta aos olhos o quanto o líder do Beatles se serve da identificação para construir o próprio eu. Enquanto ele apenas imita Elvis está alienado. Ao separar-se do cantor, mantendo uma identificação com ele, sua identidade se constitui.

A incomunicação é a regra e é comum usarmos a etiqueta da conversa nas nossas relações cotidianas. A lógica deste modelo funciona assim: “eu não te ouço e você não me ouve”. Há um pacto de silêncio onde tudo que não encaixa na intenção é recordado e jogado fora. Uma vez que eu identifico o que você quer dizer, qualquer coisa que não se encaixe neste discurso eu faço de conta que não ouvi. Entramos e saímos das conversas sem nenhuma mudança. O impasse se dá quando esta forma de diálogo invade a mediação. O desafio é estabelecermos uma ética da fala - impossível acontecer no cotidiano.

Autoconhecimento e processo de mudança

Uma das maneiras de se autoconhecer e caminhar na direção da mudança é tomar conhecimento dos desejos inconscientes. Investigar os próprios sonhos, com interesse e persistência, favorece esta caminhada existencial, pois o mundo onírico é precioso em revelar verdades difíceis de aceitar. É preciso exercitar o fortalecimento da razão, sem ignorar os processos mentais inconscientes. Atravessar a frustração, sem fugir dela, pode servir de bússola neste caminho. Para isto, deve-se vencer a preguiça e ser humilde nesta busca.

O autojulgamento deve gradativamente abrir espaço ao autoconhecimento. As técnicas usadas para ouvir e dialogar com os outros pode ser usada para estabelecer um diálogo interno, além de exercitar ver a si mesmo a partir do camarote, buscando um distanciamento emocional e cognitivo. A autoempatia é fundamental. Uma pergunta interna pode auxiliar na descoberta de seus verdadeiros interesses e necessidades: por que eu quero isto? Ou ainda: a serviço do quê eu desejo isto? Passar da culpa à responsabilidade favorece o autoconhecimento, pois a responsabilização é diferente das autoacusações – estas últimas tendem a buscar autopunições, não soluções para os problemas. Da hostilidade deve-se caminhar gradualmente em direção à cordialidade. Manter-se no presente e aceitar a si mesmo e aos outros como seres humanos não perfeitos é fundamental.

A maneira com fomos ensinados a nos avaliar frequentemente traz mais ódio por nós mesmos do que aprendizado. Sempre que nos percebermos reagindo com recriminação a algo que fizemos podemos nos questionar: qual necessidade não foi atendida e está sendo expressa por meio deste julgamento moral? Este processo provoca um luto necessário que nos ajuda-nos a entrar em conexão plena com as necessidades insatisfeitas e com os sentimentos que são gerados quando fomos menos que perfeitos. É uma experiência de arrependimento que nos ajuda a aprender com o que fizemos. É preciso atravessar este luto até chegar ao perdão. Recomenda-se a autocompaixão – a capacidade de ter empatia por ambas as partes de nós mesmos: a parte que se arrepende de uma ação passada e a parte que executou aquela ação.

Considerações finais

As ideias apresentadas apontam para a construção de um diálogo interno do mediador, onde o mesmo se responsabiliza pelas suas ações, evitando acusações ou julgamentos morais. Investimentos em desenvolvimento pessoal ou uma psicoterapia favorecem o autoconhecimento e são bem-vindos. Podem ajudar a minimizar inúmeras situações constrangedoras e de atrapalhação por parte do mediador.

O desejo do outro nos afasta de nosso próprio desejo. Quanto mais fizermos as coisas porque queremos, mais propósito encontraremos em nossas ações e na nossa vida.

Autoconhecer-se exige tempo e energia psíquica. É um trabalho que não termina, pois está em constante desenvolvimento. O mediador que não se conhece, cedo ou tarde será desafiado e poderá contaminar a mediação e sua relação com os mediandos. Quem decide atuar nesta profissão deve estar preparado para desacomodar-se. Quanto mais conhecedor de si, de suas limitações e de seus pontos cegos, mais possível será a realização do trabalho em mediação com eficiência.


Fontes:
GOLDENBERG, Ricardo. A utopia do autoconhecimento. Disponível em: https://youtu.be/hDhtnXt3TeM
KRISHNAMURTI, J. Como aprender sobre si mesmo? Disponível em: https://youtu.be/mSmX-c82cYQ

ROSENBERG, Marshall. Comunicação não-violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais. São Paulo: Ágora, 2006

URY, William. Como chegar ao sim com você mesmo. Rio de Janeiro: Sextante, 2015.

ZIMERMAN, David E. Fundamentos psicanalíticos. Porto Alegre: Artes Médicas, 1999.

Semediar com AMOR

Texto de Henrique Alam de Mello de Souza e Silva, Semediador. 

Quanto mais conhecemos o trabalho de grandes mediadores, mais nos motivamos a fazer um trabalho
melhor. Olhamos para mediadores que são referências locais, como alguns professores ou estudiosos da Mediação; vemos o trabalho de mediadores regionais ou nacionais, que dão palestras e cursos para um grande número de pessoas, e que (espera-se) trabalharam em casos difíceis de mediação envolvendo múltiplas partes ou comunidades. Temos, ainda, mediadores que alcançaram um nível internacional, fazendo conexão entre grandes grupos ou países. Independentemente do nível em que eles estão (ou que nós  estamos), sempre haverá pessoas para termos como referências. A essas pessoas chamo de “semediadores”.

E como fazer para alcançarmos o melhor de nós? Sim, porque o que queremos não é alcançar o mesmo nível dessas pessoas: elas devem ser  nossas  referências, nossos parâmetros, mas ninguém melhor a superar ou a atingir do que a nós mesmos. Pois bem, como fazê-lo?

A resposta poderia ser dada de várias maneiras — e todas elas terão como base a prática da mediação aliada à leitura —, mas creio que seja possível um norte para iniciarmos nossa melhora individual, resumido numa bonita sigla: AMOR.

“A”, de “autenticidade”. A letra inicial da nossa dica é, sem dúvida, o objetivo mais difícil de ser alcançado. Comecei nossa reflexão  dizendo  que  admiramos  pessoas, que reconhecemos o trabalho que os outros fazem; afora isso, sabemos que há mediadores que escreveram verdadeiras obras sobre mediação, que têm insights sensacionais, que nos envolvem com  seus  cursos  e  suas  aulas  (eu  próprio,  enquanto escrevo essas linhas, lembro de  tantas  mulheres  e  homens  que  representam pra mim o meu melhor adubo para a semediação!).

Entretanto, o que o mediando busca em nós não é  a  encarnação  de  um  “Como chegar ao sim”, nem a elegância da Tânia, ou o sorriso da Izabel, nem a precisão cirúrgica do Marcelo, o conhecimento da Ana Valéria, ou a fala calma do Cláudio, nem a paz no olhar da Vanderlei. São características  boas, e devem ser inspiração  para nós. Mas os mediandos que procuraram nosso trabalho esperam de nós que sejamos — mais do que qualquer coisa — autênticos. É preciso valorizar as  qualidades dos outros, desde que as nossas próprias tenham igual prestígio por nós mesmos. Se as pessoas a quem atendemos na mediação pudessem escolher entre confidencialidade e autenticidade, tenho plena convicção de que optariam por mediadores autênticos, e neles passariam a    confiar.

Autenticidade (é bom que se diga) não tem a ver com “ser como se é, e ponto!”. Isso seria, na melhor das hipóteses, arrogância. A autenticidade que aqui me refiro  é ter muitos bons exemplos, e segui-los na exata medida da naturalidade.

“M”, de “metodologia”. Em todos os cursos e livros básicos ou avançados somos informados de que existem “mediadores natos”. Com frequência, utilizam a imagem  da mãe com os filhos, ou de alguma professora ou outra profissão ou tarefa que medeie conflitos. Assim é. Em certo sentido, somos todos potenciais mediadores tais qual a semente é uma árvore em potencial. E, por mais que tenhamos que buscar a autenticidade, não poderemos deixar de ter uma metodologia, porque também não há árvore sem raiz.

Num panorama atual, percebemos que há, basicamente, três métodos de mediação: a facilitadora, a avaliativa e a transformadora, que são subdesenvolvidas em muitas outras. Não há tempo para entrar aqui em explicações ou opções por um ou outro método, mas é interessante  que os tenhamos em conta, para servir de base na nossa atuação. A metodologia será nosso ponto de partida, pois indicará a postura frente aos mediandos, as leituras que faremos e os resultados que queremos obter. Também será parâmetro para aperfeiçoarmos ou desenvolvermos outros métodos, jamais podendo ser para nós uma forma de aprisionamento, mas sim de chão firme para apoiarmos nossos pés. Grandes semediadores têm, portanto, autenticidade e metodologia.

“O”, de “organização”. Semediadores devem ser pessoas  organizadas,  no  sentido mais amplo que possa ser entendida  a  qualidade  da  organização.  Talvez  comecemos pela nossa agenda, quando combinamos  a  data  do  primeiro  encontro com os mediandos ou quando reagendamos as sessões. Não é bom  sinal  deixar  alguém esperando, ou ter que transferir os encontros por falta de organização. Os encontros devem sempre acontecer nos  horários  agendados,  até  porque  pode  ser que nosso atraso seja ponto de reforço para a espiral conflitiva, ou — pior ainda! — causa para romper-se a confiança antes depositada.

A organização perpassa também por outro campo: aquilo que devemos estudar. Atualmente quase não temos dificuldade de encontrar bons livros de mediação, produzidos aqui ou traduzidos. Mas poucos — pouquíssimos —  anos  atrás,  era  difícil achar obras boas em português, e a compra pela  internet  acabava  desmotivando pelo alto preço a ser pago com o frete e os impostos.

A produção de muitas e boas obras deve ser um alerta para os mediadores afeitos da leitura: há que se ampliar o conhecimento, mas é bom ser organizado no que se lê. A frenética procura por livros pode acarretar compras  desnecessárias  e  assuntos que poderão nunca ser trabalhados. Em contrapartida, aquele que  se dedica bem a um tema (ou, pelo menos, a um tema por vez) terá mais chances de oferecer um trabalho mais sólido e organizado.

“R”, de “reciclagem”. Todos os meus grandes mestres, vi isso conforme foi passando o tempo, tiveram ou têm períodos de reciclagem. E, quanto mais admiro um professor, mais sei que é também decorrência das novidades que me apresentam.

A reciclagem é irmã gêmea da coragem e da humildade. Andam juntas, inseparáveis. Não há reciclagem sem humildade, porque não é fácil reconhecer que somos seres em evolução, que os conflitos de ontem não são os mesmos de hoje, que o contexto não é o mesmo se comparado a quando começamos a trabalhar com mediação.  E,  para  se  reciclar,  é  importante  —  melhor,  é  fundamental  —  ter coragem. É a coragem a responsável pelo nosso melhor desenvolvimento pessoal,   é aquele desacomodar-se, é o pensar fora da caixa, é a saída da zona de conforto. Sem coragem não há reciclagem, nem mesmo há humildade, porque se reconhecer necessário de mudança é também um ato corajoso.

Essas são minhas impressões sobre o que tenho visto de boas características dos grandes mestres, sejam eles famosos ou anônimos. Pessoas que se destacam com seus carismas pessoais e que contribuem significativamente para o meu crescimento e, sobretudo, para a minha vontade de ser melhor.

O segredo de todas elas (agora revelado!) é aquilo que sempre foi evidente, e que sustenta todo o trabalho: o AMOR!